“Na era da comunicação, da cultura de serviço, da informação (a nova economia) e da sociedade do conhecimento, tudo, absolutamente tudo, é sujeito de comunicação. Em especial os intangíveis, os “valores” diferenciadores, como a identidade, a cultura, a comunicação, as marcas, a imagem, a reputação. Segundo a Fortune, 75 por cento do valor de mercado de uma empresa provém dos ativos intangíveis. Os recursos que verdadeiramente produzem vantagens competitivas são os valores intangíveis. Mas ao serem estes 75 por cento dos ativos mais difíceis de gerir e controlar, a maior parte das empresas não lhes presta ainda suficiente atenção. Na realidade, os economistas não aprenderam a contabilizar esses intangíveis que somam os 75 por cento do valor de mercado da empresa. Precisamente, esses intangíveis tornaram-se mais importantes do que o próprio produto.” Joan Costa

by Stephan Daigle
O que normalmente se entende por identidade é o conjunto de idéias que formam a imagem com a qual um empreendimento quer ser reconhecido pelos indivíduos. Essa imagem serve para orientar as ações de todos que participam direta e indiretamente do empreendimento, e se expressa nos produtos e serviços elaborados, da produção ao consumo, e todos os processos intermediários.
Apesar de muitas vezes ser confundida com sua expressão na comunicação – identidade visual ou identidade da marca – uma identidade bem definida é muito mais que a forma que a comunica (comunicação visual).
É o corpo onde vive a verdade do empreendimento, sua razão de ser e suas crenças, sua visão e missão, os vetores de sustentabilidade, as qualidades específicas, seus objetivos. Contém sua essência, a parte mais sutil de todo o empreendimento, a revelação de sua “alma”, e deveria estar expressa e presente em todas as atividades (subempreendimentos) nas quais se desdobra.
Deve ser caracterizada o bastante para se diferenciar de outras identidades, mas flexível o suficiente para se adaptar à evolução das necessidades do indivíduo e da sociedade, que formam o conjunto de clientes do empreendimento.
De um modo geral, uma identidade responde a 2 questões: que necessidades devem ser atendidas pelo empreendimento? e como essas necessidades serão atendidas?
Analisando como os empreendimentos expressam publicamente sua identidade, reconhecemos uma variedade razoável de formas, mas que acabam sendo uma maneira de responder a essas questões. E as marcas que conseguem as respostas mais claras e compreensíveis, são aquelas que também conseguem associar esse conteúdo à imagem que constroem na cabeça daqueles clientes.
Isso é verdade para o empreendimento principal, que em termos mais prosaicos é a empresa, a marca.
Mas quando perguntamos como isso é traduzido para os empreendimentos que compõem a empresa, e qual é o grau de absorção dessa tradução por parte desses empreendimentos, a resposta não é tão evidente.
Mesmo com uma identidade geral forte, existe uma grande dificuldade de permear cada colaborador com o que está presente nela. Isto se deve à distância entre a realidade imediata de cada colaborador e a realidade global do empreendimento: se olho a identidade da perspectiva de quem enxerga o consumidor dos produtos e serviços finais, consigo ter uma certa compreensão; mas quando olho a identidade a partir da realidade imediata, por exemplo, a recepção da empresa, tenho dificuldade de traduzir aquilo que é geral para a situação específica, na qual não se trata de oferecer o produto e/ou serviço final.
É essa realidade imediata o principal condicionador das ações do colaborador, portanto é dela que pode partir a orientação de suas atividades. E para que possa ser mais um ‘sustentador’ da identidade da empresa, essa deve estar traduzida e adaptada à sua realidade imediata.
Para alcançar esse desenvolvimento é necessário estabelecer parâmetros que possam ser aplicados simultaneamente, tanto na realidade geral do empreendimento (cuja referência é o consumidor final) como na realidade específica do colaborador (em nosso exemplo, a recepção da empresa, cuja referência é o visitante). Dessa forma é possível traduzir-se aquilo que é o DNA da empresa, presente na identidade, para os diversos empreendimentos nos quais se desdobra.
Se por um lado a identidade do empreendimento delineia a essência de um empreendimento, servindo como norte para seu desenvolvimento, a marca é o que carrega sua síntese. A marca ocupa um espaço nos corações e mentes dos clientes do empreendimento (colaboradores internos ou externos –inclusive os proprietários-, consumidores e sociedade em geral).
Uma marca estabelecida e reconhecida pelo consumidor é uma certa garantia de renovar experiências gratificantes com os produtos e serviços que levam sua assinatura.
Essa mesma marca é para o capitalista a expressão dos valores presentes e futuros que podem ser negociados como uma mercadoria em si. E esse valor aumenta na medida em que mais clientes e com maior grau de fidelidade estão dispostos a sustentar (através do consumo, multiplicador de experências, etc) as atividades do empreendimento que está por trás dela. Usualmente, o desenvolvimento de uma marca está fundamentado, principalmente, na relação do empreendimento com os mercados consumidor e de capital, que leva em conta aspectos relacionados ao produto e/ou serviço principal, e secundariamente, por outros indicadores valorizados como respeito pelo trabalhador, cuidado com o meio ambiente, boas práticas administrativas, etc.
Mas existe outra série de recursos para incrementar o valor da marca que ainda não são considerados sistematicamente.
Um empreendimento realiza inúmeras atividades para poder gerar seu produto e/ou serviço principal. Nesse processo, acontecem incontáveis interações entre colaboradores, de colaboradores internos com o ambiente externo (fornecedores, estado, sociedade, etc).
Cada interação dessas é feita em nome do empreendimento, mas não necessariamente carregando sua marca. Isto é, não necessariamente, cada interação é permeada com a essência da identidade presente na marca. Muitas vezes, até, essas interações são claramente conflitantes com a imagem associada à marca.
Se lembrarmos que toda interação também é, na prática, um serviço ou produto do empreendimento, podemos afirmar que grande parte deles não carregam a marca do empreendimento e, portanto, não agregam valor algum, ou até mesmo subtraem valor.
Imaginemos um empreendimento com uma linha de produtos e/ou serviços de 1.000 ítens. Cada um desses ítens é minuciosamnte elaborado para corresponder àquilo que é prometido em sua propaganda, correspondência essa que estará agregando (ou mantendo) o valor da marca que o acompanha.
Para gerar essa lista de ítens, podemos supor que outros tantos produtos ou serviços (seleção e treinamento de pessoal, compra de material, manutenção, recepção de visitantes, etc, etc, etc) são igualmente gerados pelo empreendimento. Digamos que mais 1.000 produtos e serviços.
São 1.000 produtos e serviços que, em sua grande maioria, não representam consistentemente a marca daquela identidade principal. Considerando que esses produtos e serviços são realizados, digamos, umas…100 vezes por dia, seriam cerca de (1.000 x 100 x 22 x 12) 26.000.000 (VINTE E SEIS MILHÕES!) de produtos e serviços que são gerados pelo empreendimento e não agregam valor algum (muitas vezes até subtraem) à marca.
Não fica muito difícil perceber a grande oportunidade de valorização de uma marca se conseguirmos fazer com que cada um desses ítens (secundários na lista total do que é realmente gerado pelo empreendimento) sejam também portadores dos valores ali presentes.
E, ao tornarmos cada empreendimento que se desdobra do empreendimento principal em um processo com identidade própria com o mesmo DNA da identidade principal, estaremos abrindo caminho para que isso se concretize.